segunda-feira, 19 de novembro de 2007

Reuni, Rumo à Universidade Nova?


Introdução

A intenção de escolher o seguinte tema surgiu relacionado à enorme discussão que se tem levantado em torno das questões da adesão ou não do REUNI (Programa de Apoio a Planos de Reestruturação e Expansão das Universidades Federais, instituído pelo decreto n° 6.096, de 24 de abril de 2007) pelas Universidades Federais.
Tenho podido acompanhar em muitos jornais até pessoalmente as movimentações de docentes, discentes e de funcionários para que se decidam sobre a adesão ou não ao plano. Muitos têm se mostrado a favor de sua implementação e outros contra, mas o que mais se tem percebido é a excessiva desinformação a respeito do assunto, principalmente nos meios Universitários.
O REUNI faz parte do PDE (Plano de Desenvolvimento da Educação), e é uma iniciativa no sentido de ampliar o acesso e a permanência ao ensino superior público no Brasil. O PDE por sua vez faz parte do PNE (Plano Nacional de Educação, Lei n° 10.172/2001). O Reuni é de adesão voluntária de cada Instituição Federal de Ensino Superior (IFES), por decisão do respectivo Conselho Universitário. Entre as principais propostas do Reuni estão: dobrar o número de alunos na sala de aula através do aumento de vagas, ampliação e criação de novos cursos noturnos, flexibilização de currículos, criação de novas estruturas curriculares; medidas de combate à evasão e ênfase nas necessidades acadêmicas ao invés de mercadológicas . Ele tem como principais metas aumentar a taxa de conclusão da graduação que hoje é de 60% para 90%, e aumentar a relação aluno/professor que hoje é de 10/1 para 18/1, como têm sido nas universidades públicas de outros países. Para isso o Reuni prevê um incremento gradual de 20% sobre as atuais verbas já destinadas às instituições que aderirem, e isso sim tem sido um dos principais alvos da crítica que se tem feito a este projeto.
O que poucos sabemos é que o Reuni surge dentro de um contexto de urgente necessidade de reestruturação da universidade pública em face dos desafios do mundo contemporâneo, que exige que os profissionais tenham um conhecimento cada vez mais amplo e menos focado, ou seja, interdisciplinar. “O exercício profissional no mundo atual requer aprendizagens múltiplas e demanda interseção com saberes e atitudes construídos a partir de experiências diversas que passam a ser, cada vez mais, objeto de valorização na formação universitária.[1]” Na verdade a forma de funcionamento e estruturação curricular das universidades funciona de maneira retrógrada, prevalecendo no sistema nacional uma concepção fragmentada do conhecimento, resultante de reformas universitárias parciais e limitadas feitas em outro contexto[2] do século passado. Essa forma de estruturação incorpora currículos com viés extremamente disciplinares, ou seja, as ciências fechadas em suas áreas de conhecimento com poucas possibilidades de diálogos entre si, e isso se agrava pelo fosso criado entre graduação e pós-graduação. Ao mesmo tempo, há uma precocidade na escolha profissional, o que leva muitos jovens a abandonarem seus cursos por não haverem se identificado com sua escolha. O que segundo as justificativas do Reuni, “ao reforçar as lógicas da precocidade profissional e da compartimentação do saber, coloca o país em risco de isolamento nas esferas científica, tecnológica e intelectual de um mundo cada dia mais globalizado e inter-relacionado”.
Entre as colocações dos que se mostram contra, estão: com o aumento do número brusco de alunos haverá queda na qualidade de ensino das Instituições; que haverá sobrecarga de trabalho para os professores havendo necessidade de que a Pós-Graduação exerça também papel de docência, deixando de se dedicar às suas funções de pesquisa; alguns alegam que com os Bacharelados Disciplinares haverá um aumento no fosso entre pesquisa e extensão; que essa meta de 90% não é atingida nem pelos países membros da OCDE[3] que fica em torno de 70%. E outros alegam que a reestruturação não passa de uma tentativa de cumprir as metas impostas pelos organismos internacionais com custo reduzido e sem preocupação com a qualidade.
Só que todos esses argumentos tem sido refutados pelos que defendem uma ampliação no acesso ao Ensino Público e que essas mudanças estruturais já vem tarde tendo em vista a iminente necessidade de tais transformações. Para eles, toda essa dúvida sobre a adesão ou não é um simples reflexo positivo dos tempos de democracia que estamos ensaiando. Portanto, o que parece estar prevalecendo realmente nas opiniões dos que se mostram contra os esforços de reestruturação das Universidades é a desinformação.


Qual a relação do Reuni com a Universidade Nova?

O que poucos sabemos é a imensa relação existente entre as iniciativas de reformulações universitárias como o Reuni e as idéias da Universidade Nova, criada por Anísio Teixeira e Darcy Ribeiro, principalmente pelo primeiro.
“Anísio Teixeira [1900-1971] foi uma das mais fecundas fontes do pensamento progressista na educação brasileira. Ele antecipou a emergência dos paradigmas da interdisciplinaridade e da complexidade no panorama da ciência contemporânea. Segundo o mesmo, a Universidade é a única instituição social capaz de promover a recriação contínua da cultura. Para ele, cultura significava o conjunto de atividades realizada pelo homem, em sociedade. Esta atribuição da universidade envolve uma tomada de partido, ao integrá-la na vida da sociedade, sem qualquer espécie de paternalismo, e ao exercitar um extenso e profundo olhar crítico sobre o mundo que a cerca (ROCHA, 2002). Isso inclui, necessariamente, a capacidade de olhar sobre si mesma, enquanto instituição que, ao dosar adequadamente permanência com contingência, permite corrigir, a cada tempo, o seu próprio rumo, evitando mesmo que venha a ser descartada, por obsoleta”.[4]
As mais recentes iniciativas de repensar as instituições universitárias brasileiras (Reforma Universitária e Reuni), com vistas à tarefa de atualizá-las, continuamente, frente aos desafios e exigências dos novos tempos, inspira-se fortemente na obra de Anísio Teixeira.
Segundo a proposta da Universidade Nova é prevista a implantação de bacharelados interdisciplinares, curso de formação geral como requisito para graduação de carreiras profissionais e para formação acadêmica de pós-graduação. Os bacharelados interdisciplinares terão currículos mais flexíveis com possibilidade de o próprio aluno escolher suas matérias dentro de seus preferências e afinidades. Três eixos temáticos interdisciplinares seriam adotados: Cultura Humanística, Cultura Artística e Cultura Científica.
Como pudemos perceber, a grande maioria dos pressupostos da Universidade Nova, já então proposta por Anísio Teixeira quando da criação da Universidade de Brasília[5] em meados dos anos 60, parecem estarem sendo induzidos pelo MEC através desta iniciativa chamada Reuni. Assim como nos relata o Prof° Cláudio Antônio Tonegutti e a Profª Milena Martinez em seu artigo “A Universidade Nova, o Reuni e a Queda da Universidade pública.” – “(...) o Reuni (...) foi a forma encontrada pelo MEC de viabilizar o projeto de Universidade Nova, proposto pelo Reitor da Universidade da Bahia, Prof° Naomar de Almeida Filho (...).”
Desta forma, o MEC, mesmo dando autonomia às Universidades para proporem suas formas de estruturação para o Reuni, acaba por induzir a criação de uma organização que se assemelhe as idéias de Anísio Teixeira, criando espécies de universidades novas. Por exemplo: o que o Reuni exige é que seja dobrado o número de alunos para os próximos cinco anos sem que a quantidade de professores seja alterada drasticamente. Tendo que se adaptar a este modelo, mesmo com toda a autonomia de cada Instituição, os Bacharelados Interdisciplinares se mostram como a saída mais coerente para resolver este tipo de problema.

Conclusão

Na esteira das colocações feitas por José Luiz de Paiva Bello em seu texto “Educação no Brasil: a história das rupturas”, onde o autor defende que a história da educação no Brasil é marcada por rupturas, poderíamos inferir que tais reestruturações na Universidade Pública brasileira poderiam ser uma possível ruptura com um modelo já ultrapassado de funcionamento da Universidade, um modelo declaradamente elitista. Precisamos, além de um modelo único e adaptado às nossas “realidades”, de uma instituição que esteja preparada para mexer na própria estrutura, revendo as contradições inseridas nos discursos ultraliberais que levam a mercantilização do ensino.
Estamos na sociedade da informação, onde conhecimento é poder. E é dentro deste entendimento que talvez devamos seguir o que alguns já denominaram de “vocação histórica” das Universidades latino-americanas, que é fornecer os instrumentos necessários, aos povos latinos, para que possam dialogar em igualdade com os outros blocos hegemônicos internacionais e construir novos paradigmas num mundo onde o paradigma econômico está levando ao fracasso modelos desenvolvimentistas ditados pelas atuais potências.




Bibliografia Virtual

· “A Universidade Nova, O Reuni e a Queda da Universidade” - http://www.universidadenova.ufba.br/twiki/bin/view/UniversidadeNova
· Texto Introdutório para o estudo da formação da educação no Brasil: “Educação no Brasil: a história das Rupturas” – José Luiz de Paiva Bello;
· http://www.andes.org.br/imprensa/ultimas/contatoview.asp?key=4460
·http://mecsrv04.mec.gov.br/reforma/Documentos/DOCUMENTOS/2005.4.26.15.11.23.pdf
· Decreto Federal n° 6.096 de 24 de abril de 2007 - http://www.planalto.gov.br/ccivil_03/_Ato2007-2010/2007/Decreto/D6096.htm

[1] Reestruturação e Expansão das Universidades Federais – Diretrizes gerais.
[2] Data de 1968 a última reforma universitária, feita durante período totalitário.
[3] Organização para a Cooperação e Desenvolvimento Econômico, é um grupo de 30 países mais ricos do mundo comprometidos com a democracia representativa e com a livre economia de mercado.
[4] Esse trecho foi retirado integralmente do texto: “Anísio Teixeira e a Universidade Nova” de João Augusto de Lima Rocha.
[5] “Propõe-se uma estrutura nova da formação universitária, para dar-lhe unidade orgânica e eficiência maior. O aluno que vem do curso médio não ingressará diretamente nos cursos superiores profissionais. Prosseguirá sua preparação científica e cultural em Institutos de Pesquisa e de ensino, dedicados às ciências fundamentais. Nesses órgãos Universitários que não pertencem a nenhuma cidade, mas servem a todas elas, o aluno buscará, mediante opção, conhecimentos básicos indispensáveis ao curso profissional que tiver em vista prosseguir.” - Proposta de criação da Universidade de Brasília enviada ao Congresso Nacional em 21 de abril de 1960, tendo Anísio Teixeira como Presidente da Comissão de Elaboração e Darcy Ribeiro como Relator.

Luis Mario de Brito Junior.

Roda de Chimarrão, "Communitas" e sociabilização

Introdução

A idéia de trabalhar com a Roda de Chimarrão como um rito de passagem e sociabilização surgiu da proximidade que tenho com o consumo desta erva, Illex Paraguariesis. Este hábito fazia parte dos costumes dos meus antepassados e hoje faz parte ainda dos costumes de minha família, afinal bebemos chimarrão diariamente apesar de vivermos no Rio de Janeiro.
Cabe ressaltar também que este trabalho visa através de uma visão antropológica, evidenciar as características que poderiam fazer da roda de chimarrão um rito de passagem e sociabilização. E de que forma este rito de sociabilização, neste trabalho assim chamado, pode ser enquadrado dentro das classificações elaboradas pelos trabalhos de Arnold Van Gennep em “Os Ritos de Passagem” e “O Processo Ritual” de Victor Turner.
Certamente uma roda de chimarrão não se resume a um rito de sociabilização, mas é com essa conotação que ela mais é exaltada pelos tomadores de chimarrão. Não sabemos ao certo se a roda de chimarrão é um ritual de passagem ou se a roda é somente um rito de sociabilização. Apenas sabemos que o ritual de uma roda de chimarrão carrega para um significante número de pessoas, referências à sua tradição e ao culto dos antepassados além das significações simbólicas que lhes foram legados pelas antigas gerações.
Arnold Van Gennep em seu estudo “Os ritos de passagem”, propõenos algumas reflexões e classificações para melhor entendermos a estrutura funcional de alguns ritos. Comparando o estudo deste autor com algumas observações feitas neste trabalho sobre a estrutura de uma roda de chimarrão, poderiamos constatar que o ingresso na mesma pode ser entendido como a passagem do mundo profano ao mundo sagrado num momento de liminaridade dentro da estrutura social. Assim como Van Gennep pude constatar que a pré-condição para que se possa fazer a passagem do profano ao sagrado, ou melhor dizendo, para ingressar em uma roda de chimarrão, é que exista uma identidade cultural com relação ao rito e que esta identidade esteja sendo compartilhada por um coletivo, além é claro de que o indivíduo seja convidado pelo anfitrião.
Ainda segundo o mesmo autor, todo ritual de passagem tem três fases: a separação, a margem ou liminaridade e a agregação. Dentro das observações que fizemos, constatamos que o processo de separação talvez possa ser identificado pelo ato de identificação cultural do sujeito com tal tradição. O período de liminaridade, é a roda de chimarrão propriamente dita. E por último o período de agregação, o momento em que o sujeito deixa a roda de chimarrão depois de satisfeitas suas necessidades de reconhecimento e satisfação social. Em uma roda de chimarrão, hoje em dia, este tipo de constatação é muito difícil de ser evidenciada, posto que a própria estrutura da roda de chimarrão não acontece exatamente da forma tradicional (a volta de algum “fogo de chão”[1] em algum “rincão”[2] do interior do estado gaúcho) onde seriamos transportados mais facilmente para o sagrado de uma roda de chimarrão.
Ainda dentro das classificações de Van Gennep a roda de chimarrão pode ser encarado como um ritual Dinamista por não encarar um espírito personificado; Simpático, por não haver necessidade de contato físico; Positivo por ser realizado por espontânea vontade pelo sujeito, e Direto por sua eficácia imediata não dependendo de nenhuma divindade.
Victor Turner em seu trabalho “O Processo Ritual” vai mais além. O autor acrescenta o entendimento de estrutura e anti-estrutura para melhor entendermos estas três fases propostas por Van Gennep. Assim, as fases de separação e agregação estão inseridas na estrutura da sociedade, enquanto a margem ou liminaridade faz parte da anti-estrutura. Turner chamou o processo de liminaridade, assim inserido dentro da anti-estrutura, de communitas.
A communitas é o momento em que o indivíduo está temporariamente fora da estrutura social e inserido na anti-estrutura. Lá ele estará submetido temporariamente a outras regras sociais e outras formas de hierarquias, como se em um estágio liminar. Os indivíduos dentro da communitas muitas vezes são colocados em equidade social, apenas subordinados aos anciãos rituais. Portanto a roda de chimarrão pode ser encarada como uma communitas dentro da estrutura social.
Dentro da Roda de chimarrão (communitas) uma nova hierarquia é estabelecida e temporariamente o sujeito desfruta de uma equidade social que não equivale a que ele desfrutava enquanto membro da estrutura.
“Roberto Ave-Lallemant (1812-1884) visitando o Rio Grande do Sul em março de 1858, registra a importância folclórica do chimarrão: ‘O símbolo da paz, da concórdia, do completo entendimento – o mate! Todos os presentes tomaram o mate. Não se creia, todavia, que cada um tivesse sua bomba e sua cuia própria; nada disso! Assim perderia o mate toda a sua mística significação. Acontece com a cuia de mate como à tabaqueira. Esta anda de nariz em nariz e aquela de boca em boca.Primeiro sorveu um velho capitão. Depois um jovem, um pardo decente – o nome do mulato não se deve escrever; depois eu, depois o "spahi", depois um mestiço de índio e afinal um português, todos pela ordem. Não há nisso, nenhuma pretensão de precedência, nenhum senhor e criado; é uma espécie de serviço divino, uma piedosa obra cristã, um comunismo moral, uma fraternidade verdadeiramente nobre, espiritualizada! Todos os homens se tornam irmãos, todos tomam o mate em comum!" (Viagem pelo Sul do Brasil, 1.º, 191. Rio de Janeiro, 1953).
Ao mesmo tempo, um conjunto de novas regras para permanecer na communitas passa a ser criada, como o próprio sentido da roda e uma série de outras características que serão relatadas mais adiante na descrição do rito.
No imaginário popular o entendimento do rito vai se dando nas mais variadas formas. Uma boa ilustração do que estamos nos referindo seriam os “Dez Mandamentos do Chimarrão”, encontrado em um site mas já muito propagado pela cultura popular:
1- Não peças açúcar no mate;
2- Não digas que o chimarrão é anti-higiênico;
3- Não digas que o mate está quente demais;
4- Não deixes um mate pela metade;
5- Não te envergonhes do “ronco” no fim do mate;
6- Não mexas na bomba.
7- Não alteres a ordem em que o Mate é servido;
8- Não “durmas” com a cuia na mão;
9- Não condenes o dono da casa por tomar o 1º mate;
10- Não digas que o chimarrão da câncer na garganta.

Historia resumida do Chimarrão

A Erva Mate, Illex Paraguariensis, já era consumida pelos povos indígenas desde muito antes da chegada dos brancos (portugueses e espanhóis) na região dos pampas.[3] Aqueles povos tinham o hábito de consumir esta bebida nos mais variados horários do dia desde o amanhecer até antes de dormir. Só que seu uso também tinha uma representação simbólica muito forte. Durante reuniões do grupo, muitas vezes em torno das fogueiras, para decidir questões de interesse de todos como os casos de guerra e de paz, o mate passava de mão em mão desconstruindo hierarquias e reafirmando laços de identidade e coesão social. Durante a visita dos representantes de outras tribos o chimarrão era um ingrediente indispensável para acertar os termos da paz. Quando por ventura havia a visita de algum estrangeiro, imediatamente ele era integrado as rodas de chimarrão.
Mais tarde quando os homens brancos (soldados do império) começaram a ter contato com estes povos, eles descobriram uma bebida que ajudava a amenizar o efeito dos porres e também era um ótimo auxiliar na digestão da carne vermelha que era o alimento principal de sua dieta.
“A palavra chimarrão tem origens no vocabulário espanhol e português. Do espanhol cimarrón, que significa chucro, bruto, bárbaro, vocábulo empregado em quase toda a América Latina, do México ao Prata, designando os animais domesticados que se tornaram selvagens.”
"E assim, a palavra chimarrão, foi também empregada pelos colonizadores do Prata, para designar aquela rude e amarga bebida dos nativos, tomada sem nenhum outro ingrediente que lhe suavizasse o gosto." (Elucidário Crioulo, de Antonio Carlos Machado em História do Chimarrão, de Barbosa Lessa, 57).
Marron em português, além de outros significados, quer dizer clandestino, e cimarrón, em castelhano, tem idêntico significado. Ora, sabe-se que o comércio de mate e o preparo da erva foram em tempos passados proibidos no Paraguai, o que não impedia, entretanto, que clandestinamente continuasse em largo uso naquela então colônia espanhola. (Vocabulário Sul-Rio-Grandense, Luís Carlos de Morais, 72, em História do Chimarrão, de Barbosa Lessa, 57).
Hoje a Erva Mate é pela lei considerada a símbolo do Rio Grande do Sul. E é consumida na maioria dos lares deste estado, em diversos estados brasileiros e algumas partes do mundo. Muitos gaúchos consideram o chimarrão como símbolo da tradição e da cultura de seu estado. Uma erva que carrega traços e vestígios de sua história.
Por isso se torna importante destacar que uma roda de chimarrão apresenta uma peculiaridade que não pode deixar de ser evidenciada que é seu forte apelo à terra de origem, ou seja, sua ligação territorial. Quando a erva é consumida fora do estado gaúcho, é como se os laços de coesão pudessem ser sentidos com maior intensidade. Temporariamente experimenta-se a sensação de contato íntimo com a cultura e valores imateriais do pago[4]. Ou seja, através da roda, podemos alcançar uma espécie de viagem no tempo e no espaço em direção aos valores da tradição.

Descrição do Rito:

Tentamos observar neste trabalho as dinâmicas que envolvem fazer parte de uma roda de chimarrão.
O chimarrão é oferecido geralmente pelo anfitrião ou o dono da casa. Este prepara a erva e a coloca na cuia[5] ajeitando da mesma forma a bomba[6]. Ele é quem cuida da água para que não ferva e fique no ponto. O anfitrião é quem bebe primeiro e quem fica na responsabilidade de encher o mate[7] para as pessoas da roda. Logo depois o chimarrão é inserido na roda, sempre no sentido anti-horário, ou seja, da esquerda para a direita. O anfitrião ou preparador desfruta de um status temporário muito peculiar durante a roda. Ele é visto como uma figura altruista. Além de prepará-lo para outras pessoas poderem apreciá-lo, é o primeiro a beber, em sinal de educação, já que o primeiro chimarrão é o pior.
“Todo aquele que prepara um mate, deve tomar o primeiro em presença do parceiro ou na roda de mate. Este fato tornou-se tradicional devido a épocas remotas em que o mate serviu de veículo para envenenamentos. Por isso, o ato do mateador tomar o primeiro indica que o mate está em condições de ser tomado”[8].
O consumo da bebida apresenta duas dinâmicas, a do consumo coletivo e a do consumo individual. No âmbito do consumo coletivo a roda de chimarrão pode ser encarada como um rito de amizade, hospitalidade e agregação. Também durante uma roda de chimarrão se é criado um clima para o contar de histórias, literatura oral e passagem dos costumes. Já no consumo individual ou fora da estrutura da roda, entendido como mate solitário, ele pode ser considerado como um ótimo estimulante para a reflexão e introspecção.

Hierarquia

Numa roda de chimarrão a tradicional hierarquia do mais velho para o mais novo é substituída pela hierarquia do sentido da roda. O sentido da roda do chimarrão é sempre da esquerda para a direita, independente da idade e origem social dos participantes. A entrega da cuia e o recebimento do mate deve ser feito com a mão direita. Quando por algum motivo tiver de ser usada a esquerda, a pessoa deve dizer: "desculpe a mão". Quando isso acontece, por gentileza quem recebe responde:" É a mão do coração".

Saída da Roda

Quando não se quer mais fazer parte de uma roda de chimarrão, no sentido de não tomar mais o “Mate” é só agradecer que ninguém mais lhe oferecerá o mate, a não ser por distração.

O Rito no tempo e no espaço

Uma roda de chimarrão não tem um tempo específico de duração ou horário certo para acontecer, começar ou terminar. Ela independe das horas do dia, noite ou madrugada. O tempo que se leva para beber o chimarrão é indefinido porém se deve bebê-lo do início ao fim, ou seja, toda a água que houver contida na “Cuia”. Até por questões higiênicas também.
Não há um espaço exclusivo destinado para a realização da roda, o que há é o espaço da própria roda. O rito não está fisicamente ligado a nenhum território. Ele pode se dar no estado do Rio Grande do Sul ou em qualquer parte do mundo. Porém no imaginário identitário das pessoas na roda o que existe é uma forte ligação com o território de origem do rito.

Agregação e Hospitalidade

O chimarrão já era uma erva usada por estes povos em alguns ritos de agregação e para demonstrar sua hospitalidade. Tanto dentro da aldeia como com os estrangeiros.

Amizade e passagem de saberes

Hoje para o gaúcho, o hábito de tomar um chimarrão é investido de vários significados. Um deles é a questão da identidade cultural que se criou em torno do consumo da erva e sua ligação com a ancestralidade e a tradição.
A roda também é pretexto para a conversa e a passagem dos saberes adquiridos pelos mais velhos e legados aos mais moços.

Conclusão

O que tentamos fazer ao longo deste estudo foi sistematizar as informações percebidas dentro das classificações feitas pelos dois autores abordados, Arnold Van Gennep e Victor Turner e compará-las com nossas impressões a respeito de uma roda de chimarrão.
Também necessitamos da opinião de outras pessoas que conhecem o rito e que possuem maior distanciamento em relação ao objeto, sem as quais seria impossível observar com melhor precisão as observações inferidas.
Percebemos que ao longo das classificações feitas por Van Gennep e Turner, que nos foram vigas mestras para tal estudo, que uma roda de chimarrão é um ritual de passagem e que carrega também outras significações. Pode ser um rito de hospitalidade, de amizade, de agregação, de transmissão de uma identidade cultural, atingindo assim uma de suas funções na coesão social do grupo, a sociabilidade.
Concluímos assim que a roda de chimarrão é um rito de passagem que leva a um deslocamento do indivíduo da sua estrutura social até uma communitas. E que enquanto membro da communitas ele pode transitar pelo sagrado e desfrutar de um status temporário que equipara seus membros dando novas regras e hierarquias aos participantes.

Bibliografia:
FAGUNDES, Glênio - Cevando mate, 9a.ed., Ed. Martins Livreiro, 1986.
LESSA, Barbosa. História do Chimarrão, Revista do Arquivo Municipal, São Paulo, 1953
TURNER, Victor. “Liminaridade ‘communits’”. In: O processo Ritual. Estrutura e Anti-estrutura. Editora Vozes, Petrópolis. 1974. (Pg 118-159)
VAN GENNEP, Arnold. Os Ritos de Passagem. Editora Vozes, Petrópolis, 1978.
http://www.paginadogaucho.com.br/chim/
http://pt.wikipedia.org/wiki/Chimarrão
http://www.vivernocampo.com.br/tradicoes/chimarrao2.htm
http://www.sougaucho.com.br/chimarrao/index.htm
http://www.chimarrao.com/origem_do_chimarrao.html
[1] Fogo que é mantido acesso debaixo dos galpões para que os peões possam matear e conversar enquanto lidam.
[2] Municípios interioranos, onde os velhos hábitos prevalecem em relação aos valores da modernidde.
[3] Região que hoje abrange parte do estado do Rio Grande do Sul, Paraná, Santa Catarina e parte dos países Uruguai, Argentina e Paraguai.
[4] Nome dado à terra de origem.
[5] Nome do recipiente onde é elaborado o chimarrão.
[6] Instrumento usado para sucção da bebida de dentro da cuia.
[7] Nome dado ao chimarrão no Estado do Rio Grande do Sul.
[8] Retirado do site http://www.sougaúcho.com.br/.
Luis Mario de Brito Junior